Pronto, fechada a porta. Quem conseguiu um padrão de consumo razoável está bem. Quem não chegou lá, pela lógica desse argumento, fica fora da festa, está excluído. E do ponto de vista de um cidadão do primeiro mundo, troque-se China por Índia, Brasil ou África, que o raciocínio é o mesmo. Vamos ficar do lado de fora, chupando o dedo.
Trata-se da lógica da escassez, um argumento perverso, excludente e falacioso, mas que vem encontrando eco nas mentes menos preparadas. Sequer é novidade: Já no século 18 o inglês Thomas Malthus escreveu seu célebre ensaio, no qual argumentava que se a população cresce em progressão geométrica e a produção agrícola em progressão aritmética, temos como resultado que a miséria e a fome são inevitáveis. Essa lógica condenaria a humanidade a conviver com a escassez, e com ela a formas sociais autoritárias. Pobreza e sofrimento seriam o destino natural de grande parcela da humanidade.
O avanço tecnológico, a melhoria da qualidade de vida e a revolução de produtividade nos métodos agrícolas invalidaram a lógica malthusiana. Porém os tempos modernos, essa era dominada pelo medo de tudo, vê surgir o medo de um novo tipo de escassez, a dos recursos naturais. E temos o mesmo argumento, com nova roupagem.
Como antes, a preguiça do raciocínio fácil e a tentação da conclusão sinistra impedem um pensar mais apurado. Afinal, a tecnologia é um fator que não pode ser desprezado. Foi ela que mandou pelos ares a matemática de Malthus. E é ela que vem em socorro da humanidade. Sempre que foi necessário, a ciência e a tecnologia apresentaram respostas às questões mais difíceis. Ao menos Malthus teve o álibi de viver antes da Revolução Industrial.
Hoje mesmo novas fontes de energia prometem grandes transformações na sociedade. A energia nuclear, antiga vilã, vive um verdadeiro renascimento como grande solução imediata, com mínimo impacto ambiental. Estamos no limiar da economia do hidrogênio, onde este será o grande vetor -a forma fácil de transportar energia- em substituição ao petróleo, e mais à frente vislumbramos a promessa da fusão nuclear, na qual bilhões estão sendo investidos em pesquisa.
Se miséria e sofrimento são a porta de entrada para regimes tiranos e autoritários, a construção da verdadeira democracia passa pela sua erradicação. E nesse aspecto o acesso à eletricidade tem função fundamental. A NASA publica uma montagem de fotos noturnas da terra, por satélite, onde podem ser vistas as luzes das cidades. É impressionante e revelador observar o contraste entre os países desenvolvidos e o resto da humanidade.
http://visibleearth.nasa.govFalando de Brasil, nosso consumo per capita de energia elétrica está muito aquém do que pode ser considerado socialmente justo. Estamos abaixo dos nossos vizinhos da Argentina, do Chile e Venezuela, e consumimos por habitante menos da metade que os nossos irmãos portugueses. Não basta crescer a oferta de eletricidade de forma vegetativa. É preciso aumentar o consumo individual. Energia é qualidade de vida e os planejadores do governo e os agentes da iniciativa privada têm uma obrigação social, um débito a resgatar com as populações mais carentes. É preciso trazer esse contingente a padrões de consumo mais elevados. A busca de melhores padrões de vida e de dignidade é um direito legítimo de todo ser humano.
Eletricidade é um dos principais vetores de inclusão social. Mas é preciso que isso seja feito sem exagerar na dose do assistencialismo, é preciso acertar na mão. O programa Luz Para Todos tem sido um sucesso nesse sentido. Um técnico envolvido me contou que quando a eletricidade chegou numa cidade do interior do sertão nordestino, o dono da venda local veio reclamar da queda vertiginosa na venda de pilhas e de querosene. Esperto, estava encomendando lâmpadas e ventiladores.
Aqui, nos grandes centros do sudeste, muitas vezes não nos damos conta de que essa ainda é a realidade de muitos brasileiros. E não é só nos rincões mais afastados, como muitos imaginam. Mesmo no Estado do Rio de Janeiro ou em São Paulo ainda há locais onde não há suprimento de eletricidade. Enquanto isso, nossa ambientalista de fim de semana chega em casa, pega o elevador, põe o jantar no microondas, liga o ar-condicionado, senta-se em frente à televisão e, no intervalo de sua novela preferida, lê meia notícia no jornal e aparece com um argumento desses, condenando algum coitado que vive na parte escura do mapa a viver de pilhas e querosene.
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